sábado, 4 de abril de 2009

Branca de Neve

Branca de Neve era pouco mais que uma criança, foi perseguida por uma madrasta com a periquita em chamas e que não admitia concorrência. A estória deixa isso claro. Mas conheço uma pá de gente que tenta a todo custo ver a madrasta como vítima e a princesa como uma monga que merecia ter sido assassinada. Mesmo a estória deixando claros os factos.

Branca de Neve morou com os anões por algum tempo, sem ter sido molestada por eles, a estória deixa claro. Mas conheço uma pá de gente que força para acreditar que era uma concubina, mesmo a estória deixando claros os factos. Uma concubina com os atributos físicos dela não precisaria arrumar a casa, convenhamos.

Branca de Neve era uma garota frágil e bem educada, mas não era indefesa. Não era a monga que muitos querem fazer parecer, ou não teria sobrevivido um segundo sequer na floresta, a não ser que tivesse aberto as pernas para o caçador, o que a estória deixa claro que não aconteceu. Mas conheço uma pá de gente que usa de toda a retórica de que dispõe para denegrir a imagem da princesa. E encontra quem ouve.

Gostar ou não gostar tem motivos que quase nunca nos interessam, só a quem os tem. Gostar não é o caso, o caso é a recusa de tanta gente de admitir uma pessoa que cultive virtudes. Não é grilo da minha cabeça, eu disse que conheço essa pá de gente porque convivo com elas e as estudei ao longo de décadas.

São pessoas que reclamam da corrupção, mas não hesitam em dar um jeitinho para se beneficiar, ainda que em detrimento do outro. Branca de Neve se mostrou doce e meiga, mesmo quando precisava repreender os anões. Trabalhava todos os dias e festejava à noite, como se espera de uma alemã. Oh, sim, a fábula se passa na Alemanha, não nos Estados Unidos. Desculpe se afetei alguma crença arraigada. Bem, o facto é que ela não via o trabalho como um castigo, teria meios para evitá-lo, mas as pessoas que a detratam vêem o trabalho como castigo. A dignidade dela incomoda, por não haver espaço para vícios.

Alguns alegam que ela era uma molenga que se deixou dominar por uma madrasta. O que uma criança que já amargara a perda da mãe, e recentemente a do pai, poderia fazer contra quem já tinha dominado um reino? A rainha má não poderia matá-la, pura e simplesmente, sem enfrentar a ira dos súditos, então uma morte acidental na floresta era a solução. Bem, o caçador também era um súdito e certamente reconheceu no rosto da menina a sua mãe, a quem servira por anos.

Vou contar um lado mais feliz da vira real. Conheço gente que faria o mesmo que o caçador, que pouparia alguém mesmo sob risco de morte. Conheço gente como os anões, que se afeiçoaram à pouco mais que criança e jamais tocaram um dedo nela, talvez até já tivessem seus casos, mas isso a fábula não esclarece. Lembram do filme "Uma Linda Mulher"? Tive notícias de homens (no plural mesmo) que fizeram algo parecido. Não apareceram em uma Lotus, mas fizeram o que o filme mostra.

Branca de Neve é instrumento pedagógico para o que espero que estejam compreendendo. Se dez por cento das pessoas fossem como os detratores da garota fazem parecer, não haveria mais humanidade. Não haveria gente honesta suficiente para compensar os estragos.

O que mais agrava, é as pessoas acharem absolutamente normal que se pense mal, que se denigra a imagem de quem demonstre alguma solidez de caráter. Isso é comburente para os corrompidos, eles passam a agir livremente com a aquiescência da população, que pensa que ser ruim é que é bom. Já é notório o esforço dos editores para corromper e até imbecilizar os heróis dos quadrinhos, talvez por isso tenham matado o Capitão América. Gente que perdeu as esperanças e não admite que alguém ainda a tenha.

Gente honesta do mundo! Uni-vos. A alegoria da Branca de Neve é o exemplo ideal de caráter. Ela trabalhou no castelo onde nasceu, mas não embruteceu por isso, se desapegou do título que seu sangue legou para assegurar sua subsistência, mesmo com as vicissitudes mais severas manteve a amabilidade que os pássaros reconheciam, se desapegou do passado para poder viver com os anões, trabalhando diariamente, cozinhando, lavando, buscando água e agüentando o assédio dos paparazzi durante a gravação do longa metragem. E sabe-se lá quantas vezes quebrou os chifres no portal de entrada, porque aquilo era muito baixo.

Eu não estou dizendo que é possível haver gente do naipe de Branca de Neve, eu afirmo porque conheço pessoas (plural) como ela. Apreciar e cultivar a beleza e o refinamento não aliena ninguém, muito pelo contrário, essas pessoas que conheço são muito mais politizadas que os marxistas de boutique, pois enxergam os dois lados da balança.

Me deprime haver todo um universo de belezas e virtudes, mas as pessoas que me cercam insistirem para eu só ver podridão. Pior, insistem para que eu me torne podre. Não entro nos méritos e motivos de cada um ser amargo o quanto for, mas seria no mínimo amigável guardar o amargor para si mesmo. Durante dez anos ajudei com acompanhamentos psicológicos, essas pessoas deveriam estar em um divã ao menos duas vezes por semana.

A fábula não deixou dúvidas sobre a Branca de Neve, inventar dúvidas e perverter a estória não acrescenta nada além de mostrar onde está realmente a perversão; nas cabeças dessa gente. Perverte quem é propenso à perversão, como dizer que Wendy (de Peter Pan) teve uma alucinação enquanto era violentada.

Acredito que as vidas dessas pessoas sejam sujas, amargas, cinzentas e medíocres. Elas querem que assim se mantenham. A minha vida e as das pessoas das quais procuro me cercar não são. Eu vejo as flores nas ruas por onde passo, não só o lixo que os porcalhões jogam pelas janelas dos carros. Sei admirar uma dama com as pernocas de fora sem planejar 1/2 de levá-la a 1/4, e não sou só eu. Não se intimidem com a propaganda cafajeste que se tornou tão popular, contrabalanceando com os excessos fúteis do politicamente correcto. São porções demasiadas do que deveria ser útil, nada demais presta.

Não podemos determinar como será a vida do outro, se ele será feliz e saltitante, mas podemos decidir sim o modo como vemos o mundo. Tomar os personagens clássicos como exemplo não é ficar com a cabeça nas nuvens, é sensatez. Nelas há todo o arquétipo humano que encontramos na "mitologia" greco-romana, só que numa roupagem menos antiga. Há beleza, acompanhada da realidade dura dos camponeses das idades média e moderna, mas há muita beleza e essa beleza é que ensina a lidar com os perigos da vida real.

Não sei se alguém ainda não notou, mas essas fábulas têm o que ensinar, ao contrário de historiadores fajutos que chamam a Princesa Isabel (ironicamente) de "branquinha bonitinha que libertou os pretos". O pior é que esses livros didáticos foram comprados com o nosso dinheiro. Chamem os anões, a madrasta se escondeu no Ministério da Educação!

Quanto ao "Viveram felizes para sempre", é o fim da estória. Ei, meu! Ela vai se casar, vai para a lua de mel, quer bisbilhotar para quê?

3 comentários:

Adriane Schroeder disse...

Perfeita a história, Nanael.
Amei!
:)

Nanael Soubaim disse...

Obrigado, querida, mas espero mesmo é que ao menos uma cabecinha esteja fértil e receptiva.

P.S: Estamos devagar, heim!

Adriane Schroeder disse...

Acho que em ritmo de feriado... ahhaha.
Amanhã tento publicar algo...
Bjs!